terça-feira, setembro 05, 2006

Rock in Rio 2006

Este ano e já como repetente, decidi voltar aos sweet sixteen. Como eu e o meu irmão, em fase pré "hormonas aos saltos", temos gostos comuns (melhor, ensinei-lhe a ouvir Space Oddity do David Bowie e ele, depois de muitas insistências, mostrou-me como se aprecia Da Weasel) decidimos ir ao Rock in Rio 2006.
Em 2004, ele tinha ido com os meus pais assistir aos Evanescence. Eu, por meu turno, fiquei-me pelo não muito comprometedor Sting & Cia.
Mas este ano o programa era, para nós, mais aliciante: eu achava piada aos Orishas, ele adorava os Da Weasel e ambos amamos os Red Hot Chili Peppers.
Para comemorar, decidimos embarcar numa aventura sem precedentes. Para ele, na sua curta vida, era a chance de assistir a um grande espectáculo. Para mim e o meu namorado, era o retorno à adolescência. Foi a loucura!
Decidimos viajar a bordo do comboio Rock in Rio, que nos conduziu por mais de 24 horas de puro divertimento.
Dirigimo-nos para a Estação de Campanhã. Foi lá que me apercebi como uma simples estação de comboios pode juntar vários mundos, realidades e conceitos. Ao mesmo tempo que nos preparavamos para embarcar na maior aglomeração de hormonas em ebulição por centímetro quadrado, partia também a maior concentração de betos, em direcção a uma qualquer quinta no Douro. O contraste era enorme. Embora na mesma faixa etária da jovem esposa, muito coquete, no seu fatinho de corte clássico que abraçava o esposo (jovem quadro superior de um banco) sentia-me nos seus antípodas. As minhas sapatilhas contrastavam com os saltos agulha, as jeans do meu namorado não podiam estar mais distantes dos chinos de griffe do senhor gerente de conta. No entanto, por breves instantes, apesar de habitarmos o mesmo espaço e a mesma faixa etária, vi um olhar de inveja daquele homem que nos olhava.
Já dentro do comboio e por algum tempo duvidei da minha sanidade mental. Por todo o lado vi rostos imberbes, piercings, umbigos à mostra (nada a que não estivesse já habituada)... O problema eram os gritos! É que, a cada abrandamento, e desde que se vissem pessoas nas ruas, as jovens (que iam de cabeça de fora) gritavam: PUAAAAAAAAAAARTO!!!!!!!!!
Foi nessa altura que pensei: porque raio não trouxe eu diazepam? Xanax, Unisedil, Bialzepam, todas as marcas de calmantes, suporíferos e afins passaram pela minha mente. Estava a ficar algo preocupada.
No entanto, apesar da chinfrineira, fizemos uma viagem muito agradável.
Chegámos a Lisboa, bebemos uma água no Centro Comercial e fomos para o metro, em direcção ao Parque da Bela Vista. Foi aí que nos apercebemos da maior diferença entre Lisboa e Porto: o calor. Foi quase impraticável a subida desde a estação do metro até ao parque. Nos suávamos, arrastavamo-nos, babávamos, quais lesmas em busca de sombra. Mas de quem terá sido a ideia peregrina de fazer ruas a subir? Os polícias e seguranças que acompanhavam o percurso deixavam-nos ainda mais desesperados porque nem uma gota de suor assomava aquelas testas.
Já no parque, depois de um bom descanso debaixo de umas árvores e de deambular pelos vários stands, foi a altura de nos preparamos para os concertos.
Os Orishas, com o seu som muito cubano abriram caminho para a noite que se adivinhava memorável.
Os Kasabian foram para mim uma boa surpresa. Sentiu-se uma química enorme entre o grupo e o público (apesar de não conhecermos as músicas). Eles traduziram na perfeição a expressão: primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Chegou um dos momentos maiores do Rock in Rio o concerto dos Da Weasel. Apesar de esmagada, pisada, suja e sequiosa, estava maravilhada. Há quem diga que eles podiam ter feito melhor, mas para nós, que lá estávamos, foi simplesmente MARAVILHOSO.
Em completo delírio, chegou o momento por que tanto esperávamos. Tendo estado a maior parte do tempo nas filas da frente, nós os mais velhos, começámos a notar o efeito dessa mesma idade: a dor nos pés rapidamente se alastrava às pernas e costas. Apesar da meia birra do meu irmão, viemos para uma zona mais distante do palco, mas onde nos podíamos sentar e gozar devidamente e espectáculo.
E... foi FABULOSO! Todas as músicas que atravessaram pelo menos duas gerações estavam lá e foram cantadas em coro. Até a completa falta de interacção do vocalista com o público foi perdoada pela performance do artista - a dança louca, a inquestionável voz e a enorme simpatia dos outros elementos da banda fizeram deste concerto um espectáculo único e irrepetível.
Cansados, cheios de pó e de sono mas com a alma muito cheia e completamente revigorada, fomos para o comboio.
Mais uma experiência digna do Twilight Zone. Toda a gente se deitava nos bancos, dormindo, mitigando a fome e a dor nos pés, ou apenas tentando libertar a adrenalina que restava...
O resultado? Apesar da CP ter sido bastante previdente e acima de tudo muito inteligente (se calhar experiente), fretando dois comboios em vez de um, a falta de bancos era notória.
Resultado: fiz uma viagem de 3 horas e tal com miúdos que, completamente alheios ao que os rodeava, indiferentes ao desconforto dormiam no chão dos corredores, junto às casas-de-banho (pelo que tive de passar por cima de três que dormiam no espaço de 2 metros: dois para cima, um para baixo) e até nas prateleiras das malas.
Estação do Porto - Campanhã. Chegamos mais ricos do que partimos: as memórias de mais esta aventura vão perdurar e não há bem maior que uma excelente recordação de um momento feliz.

Sem comentários: